24 de março de 2010

Gente da Velha Guarda

Num clube cujas origens remontam a 1915, a história escreve-se, mais de oito décadas decorridas, com infinitos sinais de vida mas, também, com crescentes sinais de saudade. Sem limite, a ponte entre o passado e o futuro vai-se enchendo de nomes e factos. Os nomes são os dos homens que corporizaram os factos. Gente ilustre e gente modesta, costuma dizer-se, numa diferenciação um tanto sem sentido. Toda a gente de algum modo, se ilustra. Fernando da Silva Veloso, por exemplo. Quem era e como se ilustrou ele? Poveiro, fez-se, do Varzim Sport Clube, pela lei da vida...

O sócio nº. 1

Ser o associado número um de uma colectividade que entrou, no dia de Natal de 1999, no octogésimo-quinto ano de vida quer dizer que alguém encarna uma paixão antiga e uma fidelidade sem quebras. Essa paixão e essa fidelidade exprimem-se, no que respeita a Fernando da Silva Veloso, através de um pequeno documento que o acompanha desde 1933, quando se fez sócio do Varzim. Ao tempo, o clube estava no décimo-oitavo ano de existência, Fernando Veloso era um rapaz de 22 anos. Decorreu (ano de 2000) sessenta e sete anos: tantos quantos tem de filiação clubística o respeitável associado "número um" varzinista, em oitenta e cinco da sua própria vida.

Antes de ser sócio, Fernando Veloso foi, no Varzim, infantil de basquetebol. como atleta-aprendiz, entrou na intimidade do clube, penetrando pela própria vivência as suas dificuldades e os seus segredos, partilhando alegrias e tristezas, firmando uma devoção que seria para a vida inteira e, de caminho, descobrindo a importância do desporto na vivência social: "De manhã cedo, ia com um grupo de amigos praticar a modalidade (basquetebol) onde hoje é o campo de treinos. Fizemos vários jogos representando o clube. É das camadas jovens que saem homens".

Estass palavras de Fernando Veloso são transcritas de uma pequena entrevista publicada no boletim (Dezembro de 1996) comemorativo do 81º, aniversário do Varzim Sport Clube. E do "sócio nº. 1" é, também, esta reflexão: "Não está certo os clubes grandes levarem os melhores executantes. Contraria o propósito da formação. Havia de existir uma lei que estipulasse determinados anos de carreira de um jogador ao serviço do clube onde foi criado". Para o mais antigo associado varzinista, não subsitem dúvidas quanto a um ponto: são os jogadores da terra "que representam a mística do clube".

Fernando da Silva Veloso nasceu a 28 de Maio de 1912, em vésperas da Grande Guerra, que não só seria grande (1914/1918) mas também a primeira do século a espalhar, em larga escala, a morte e a destruição na Europa. Viria outra guerra, anos mais tarde, com mortes e destruições mais sofisticadas.

Rubem, o alfaiate

Temos outro exemplo: rubem dos Santos Paroleiro. Nascido na Póvoa e que era alfaiate. E que jogou no Varzim Sport Clube. Com 83 anos de idade em 2000 - menos dois do que o Varzim -, Rubem é um dos quatro sobreviventes da equipa que, na temporada de 1934/35, se sagrou campeã concelhia na categoria de "Honra". Os três restantes dão pelos nomes de Arlindo Miranda, Fernando Boto (ambos radicados no Brasil) e Salvaterra (que vive em Aguçadoura).

Rubem era extremo-direito e vestiu a camisola do Varzim entre 1934 (tinha 17 anos) e 1940, ano em que, no mês ed Março, se largou para a aventura africana. Fez-se funcionário público, "trabalhando nos combois de Angola", enquanto retomava a carreira futeboística no Ferroviário de Luanda, o clube da companhia de caminhos-de-ferro. A aventura durou, longamente até 1975, um ano depois de "Abril de 74". Reformado, Ruben regressou ao chão de origem.

Invejável octogenário, Rubem dos Santos Paroleiro encontra-se com antigos e novos amigos, vai sempre ao futebol, traz no bolso o cartão de sócio nº 1076 do seu Varzim. Pergunte-se-lhe como era o futebol no seu tempo e ele responderá que "era melhor, jogava-se com amor à camisola". E não só.

- Sendo alfaiate, tratava do meu próprio equipamento. Não todo, porque o Varzim fornecia as botas e camisola, mas eu entrava com as meias, que comprava, e calções que eu mesmo confeccionava.

Ordenado? Prémio de jogo? O velho extremo-direito, que foi alfaiate e trabalhou, em África, nos comboios, conta como era:

- Nos jogos que fazíamos fora de casa, tínhamos muita sorte quando aparecia um director para pagar um posta de bacalhau frito e um copo...

Era, mesmo, por amor à camisola ou à arte. Sentimento que ia dos jogadores aos dirigentes. Rubem recorda um episódio saboroso:

- Certa vez, íamos nós receber o Desportivo de Portugal, do Porto, para um jogo do "Distrital" e um director chamado Laranjeiro foi a Monção comprar uma gaita de foles. Comprou a gaita e arranjou um tocador. Nas vérperas do jogo, no meio da rua, junto de uma grande tabuleta, o homem tocava a gaita e toda a gente parava a ouvir - e lia a tabuleta. Encheu-se o campo e ganhámos o jogo. Depois, fomos ao Desportivo e perdemos, mas foram tantos varzinistas atrás da equipa que metade nem sequer conseguiu entrar no campo!...

Malgueira, "demónio de habilidade"

Na solene cerimónia comemorativa das "Bodas de Ouro" do Varzim, em 1965, quando o director-geral dos Desportos, dr. Armando Rocha, colocou na bandeira alvinegra a Medalha de Bons Serviços desportivos concedida pelo Ministro da Educação Nacional, o estandarte era garbosamente empunhado por um antigo futebolista do clube. José Malgueira, de seu nome.

No Varzim, José Malgueira é tido como uma das suas muitas "relíquias", Na revista que assinalava o cinquentenário, uma das páginas era, exactamente, dedicada a Malgueira, definido como "esse demónio de habilidade que enchia os campos com as suas arrancadas, com os seus driblings e, sobretudo, com o seu apego, a sua luta de coração". E, mais adiante, como "azougado e habilidoso, honesto e sensato". Não era dizer pouco.

Futebolista infantil do Varzim aos 12 anos de idade, ainda nos tempos de arrancada do clube, Malgueira vestiu a camisola varzinista nas décadas de 20 a 30, participando em jogos entre as melhores equipas nortenhas, "com que nos batíamos de igual para igual, só o F.C.Porto é que nos conseguia ganhar, aqui, na Póvoa".

De entre as suas inúmeras recordações desportivas, Malgueira escolheu uma para contar na tal revista do cinquentenário. Aqui a transcrevemos, ipsis verbis:

"Foi passado em Amarante, num dos desafios de bota-fora, para as finais de campeões. Fomos lá, ganhamos. Durante o desafio, houve vários casos, e no fim do jogo, também houve. Mas quando saímos de Amarante e nos julgávamos livres daquele sarilho, ao chegarmos à vila da Lixa, deparámos com uma multidão no meio da estrada. Todos pensámos que eram os de Amarante que nos vinham fazer uma espera. Afinal de contas, com surpresa nossa, as pessoas que ali se encontravam fizeram sinal para pararmos e, em cortejo, com grupos de meninas atirando-nos flores, entrámos na vila da Lixa. Quiseram festejar a nossa vitória sobre os rivais e vizinhos amarantinos. O susto foi enorme, mas compensou..."

Memória florida de José Malgueira, um entre tantos velhos e respeitáveis servidores do Varzim.

5 comentários:

Golo disse...

muito bom post

Ponta Esquecida disse...

Muitos Parabéns pelo post.

O trabalho que tem tido em todos os últimos posts demonstram uma grande admiração e dedicação ao clube.

Em relação ao post em si. É interessante analisar os pontos de vista dos "antigos" mas todos sabemos que certos pontos não sao exequíveis...

lobos do mar disse...

Muito Obrigado por reconhecer o meu amor pelo Varzim.

Anónimo disse...

No fim de ler este post lembrei me de quando ia ver o varzim com o meu pai e as glorias que passei ali naquele campo e a situação actual deixa me triste pq este enorme clube e que se confunde com a historia de muita gente que tudo fez para este clube ser o que é hoje esta a ser estragado pela incompetencia e trafulhice de um presidente ladrão e com cara de pau... Parabens pelo post e pela dedicação ao clube se fossem todos como tu LOBOS DO MAR...

lobos do mar disse...

Mais uma vez, Muito Obrigado...